segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O tango

Eu passava pelo salão, apressado com os fones de ouvido zunindo,
quando um rasgo súbito e agudo do acordeon me chamou a sentar. Foi
inevitável.

Eram três que tocavam o tango, ainda que não se pudesse distinguir
sons independentes. Era só uma música, imperiosa e única.

Mas, se no palco escuro se escondiam os músicos, era o salão que me
prendeu a atenção: um senhor e sua senhora. Eram posse um do outro, e
a música tocava só para eles.

Tango todos já viram, nas danças de salão, nas apresentações aqui
e ali. Mas, assim como o bom samba está no morro, o bom tango está
nos velhos portenhos, menos acrobáticos e muito mais intensos.

Enquanto os pés pareciam unidos por cordas, movendo-se e parando,
movendo-se e parando, ela colava o nariz no rosto dele, aspirava
profundamente. Ele, impassível, movia-se humildemente para a música
que tocava só para ela, que ele conduzia.

Dançaram por uma hora. E eu assisti o que é o tango de verdade.

Um comentário:

Unknown disse...

ai, eu vou chorar. tô menstruada, esses textos são demais para mim.