quando um rasgo súbito e agudo do acordeon me chamou a sentar. Foi
inevitável.
Eram três que tocavam o tango, ainda que não se pudesse distinguir
sons independentes. Era só uma música, imperiosa e única.
Mas, se no palco escuro se escondiam os músicos, era o salão que me
prendeu a atenção: um senhor e sua senhora. Eram posse um do outro, e
a música tocava só para eles.
Tango todos já viram, nas danças de salão, nas apresentações aqui
e ali. Mas, assim como o bom samba está no morro, o bom tango está
nos velhos portenhos, menos acrobáticos e muito mais intensos.
Enquanto os pés pareciam unidos por cordas, movendo-se e parando,
movendo-se e parando, ela colava o nariz no rosto dele, aspirava
profundamente. Ele, impassível, movia-se humildemente para a música
que tocava só para ela, que ele conduzia.
Dançaram por uma hora. E eu assisti o que é o tango de verdade.


Um comentário:
ai, eu vou chorar. tô menstruada, esses textos são demais para mim.
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